Floribella era uma menina inocente, ingénua e, talvez por isso, relativamente feliz. Inocência e ingenuidade (para não mencionar uma certa falta de experiência, ou ignorância, ou burrice...) são condições imprescindíveis para a felicidade num país em que anda meio mundo a foder* o outro. O melhor mesmo para quem está a ser fodido* é nem sequer se aperceber disso, ou pelo menos não pensar sobre o assunto. Assim, a burrice (ou pelo menos o comodismo) torna-se numa grande qualidade. Caro leitor, conselho do dia: se pensas muito, treina-te para pensar pouco! (Garanto que é possível treinar. Começa por dizer a ti próprio, todos os dias, em frente ao espelho: "Não te chateies com isso." Vais ver que a tua vida vai mudar.)
Na casa da Floribella moravam duas bruxas más que tinham como passatempo fazer-lhe a vida negra, tentando por todos os meios que Floribella não trabalhasse, não estudasse, não dormisse (muito importante, este pormenor), não saísse de casa, não tivesse amigos, enfim, que não se atrevesse a ser feliz; aliás, que não se atrevesse a fazer nem a ser coisíssima nenhuma, muito menos a "brilhar" de alguma forma. Isto não é estranho, tendo em conta a conjuntura cultural maior em que o país se encontra, onde ninguém quer fazer nada, nem deixar os outros fazer... Basicamente, nem fodem*, nem saem de cima. Se eu não faço, os outros também não podem fazer. Se eu não subo, os outros também não podem subir. Se eu não evoluo, mesmo que não faça nada para evoluir, também não quero que os outros evoluam. Tem lógica, não tem?... Pois... não, não tem. Também achei que não.
Apesar da inveja das duas bruxas, Floribella nunca desistiu. Afinal, era uma jovenzita com a vida toda à frente dela, e (acreditava ela) um futuro promissor, baseado na sua inteligência (afinal era inteligente e não burra... ou talvez sofresse de doença bipolar...) e principalmente na sua enorme vontade de trabalhar.
No mundo da Floribella tudo parecia perfeito (apesar de no fundo ser tudo uma valente merda*)... Floribella acordava todos os dias com a luz a entrar-lhe pelo quarto dentro e com o som dos passarinhos a chilrear. O dinheiro não tinha importância, só a quantidade de amigos que tinha. Por isso, Floribella cantava todos os dias alegremente o "não tenho nada, mas tenho tudo", mesmo trabalhando para patrões que a exploravam fortemente. Porque ela sabia que agora não tinha nada, mas que tinha tudo... à frente dela. A ilusão de um futuro melhor mantinha-a a trabalhar com afinco. Tal como a "religião é o ópio do povo" (uma frase de um autor "comuna" combina sempre bem com uma autora sindicalista), parece que na merda* do mundo do trabalho de hoje, a promessa de melhores condições, melhores salários, enfim, de uma vida melhor, é aquilo que mantém as pessoas a trabalharem cegamente. Sim, cegamente. A laborarem em condições miseráveis, para empresas de palhaçada e para patrões que odeiam, sendo o sentimento absolutamente recíproco. Parece uma espécie de prostituição social, em que começa a faltar a toda a gente a capacidade de se distanciar um pouco, só o suficiente para perceber que está a desperdiçar a juventude, e quiçá a vida toda, num trabalho detestável e que não serve para nada. (Realmente, pensando bem, a comparação foi má, porque a prostituição ao menos serve para alguma coisa e não é assim tão mal paga...)
No entanto, Floribella não pensava nisso ainda, e era tão estúpida que até falava com as árvores (pelo menos na telenovela...).
Havia, é claro, o Príncipe. No fundo, o Príncipe contribuía bastante para o colorido do mundo da Floribella, que o amava do fundo do coração, e que achava que ele a amava de volta (tradução directa da expressão inglesa
He loved her back, que também pode ser traduzido por "ele adorava as costas dela"). O Príncipe comprou um anel para ele próprio, daqueles parecidos com uma aliança. Depois deu um anel à Floribella e pediu-a em casamento. Floribella disse logo que sim. Escusado será dizer que nesse momento se ouviram harpas a tocar, apareceram arco-íris por todo o lado e Floribella foi transportada para as nuvens por um grupo de passarinhos verdes.
Passado pouco tempo o Príncipe disse que tinha mudado de ideias. Estranhamente, Floribella até compreendeu (lembrem-se que era muito inocente). O Princípe propôs à Floribella que abrissem uma conta-poupança, também. Quando Floribella tentou passar à acção, ele também já tinha mudado de ideias sobre isso e argumentou que afinal os bancos lhe metiam medo. Tinha sido diagnosticado ao Príncipe um novo tipo de fobia... Mas não era aos bancos, por muito dramática que tenha sido a situação do BPN.
Nesta altura Floribella ficou triste. O Príncipe tinha-se revelado um bocado impulsivo.Talvez o príncipe fosse meio esquizofrénico, como Floribella. Ou talvez, no fundo, fosse um
compromissofóbico. Floribella não queria pensar nisso. Floribella preferia crer que o seu Príncipe era realmente doido do que
compromissofóbico, porque a
compromissofobia do Príncipe implicava que ela tivesse motivos para exclamar amargamente: "Os homens são todos iguais!". Floribella não queria aceitar que os homens fossem todos iguais. Quer dizer, podiam ser todos iguais que ela não se importaria, a não ser que o "todos" incluísse o homem dela. Floribella alimentava a esperança que o seu fosse diferente. Queria acreditar nisso desesperadamente, como um náufrago que se agarra ao salva-vidas... (Que
cliché mais piroso!)
Apesar de nunca ter dado muita importância ao dinheiro, o vil metal ia assumindo uma importância cada vez maior na vida de Floribella, principalmente porque percebeu que sem pilim nunca ia poder sair da casa horrorosa em que morava. A casa era decadente. Os móveis eram do tempo dos avós da Floribella (e os pais dela, por sua vez, tinham idade para ser seu avós, por isso será melhor dizer que os móveis podiam ser do tempo dos bisavós). A Mãe era viciada em vários tipos de drogas legais, e a ociosidade dava-lhe para perseguir a filha com acusações constantes de toxicodependência (esta tem piada) e de sexo promíscuo (esta é quase tão estúpida como a anterior). O irmão mal existia, e quando existia limitava-se a murmurar "Fodassssssssssssssssssssss" e a bater com as portas de madrugada. Acrescente-se que mais recentemente, desde o último despedimento, Floribella passou a acordar todos os dias com o som do Pai a escarrar para dentro da retrete durante vários minutos. Esta melodia maravilhosa deixa-a não só a deixa bem disposta para o resto do dia, como é o que lhe dá força para continuar... Continuar a esperar que o Príncipe quisesse e pudesse sair de casa também.
Por falar nisso, Floribella mudou umas trinta mil vezes de trabalho, algumas vezes porque foi despedida e outras porque não aguentou mais a anormalidade de patrões e/ou colegas, e o seu futuro brilhante foi ficando cada vez mais longe. Floribella era licenciada, por isso até podíamos usar aqui mais um
cliché horroroso e escrever que ela tinha ficado a ver o seu futuro por um canudo, mas a autora achou que eram
clichés a mais para escrever em dois parágrafos. Digamos então apenas que ela foi perdendo a esperança.
Floribella tornou-se um pouco amarga devido às desilusões que foi sofrendo. Apesar de tudo, acha que até aguentou muito bem tudo o que passou, mas agora sente que já não aguenta mais. Floribella perdeu o entusiasmo que tinha para dar e vender, para ir a tudo o que é entrevista, para aceitar qualquer trabalho por qualquer valor, a achar que "um dia" vai ser compensada. Atenção: Floribella quer trabalhar, só não quer
qualquer trabalho. O Príncipe, que ainda está a estudar, parece que não vê com muito bons olhos esta nova atitude de Floribella perante a vida, nem parece ter muito respeito pela sua dor. O Príncipe acha que as pessoas deviam todas era
ir trabalhar. Curiosamente, o Príncipe não trabalha, a não ser que consideremos "trabalho" dar lições de moral aos outros o dia todo. O Príncipe está a fazer planos para se reformar aos 30 anos, o que significa que tem 7 pela frente. Não é mau. É menos do dobro da experiência de trabalho da Floribella...
Floribella fica assim, digamos, um bocadinho fodida*, porque acha que após este tempo todo provou o seu valor como trabalhadora e deve exigir condições melhores. Floribella não gosta mesmo nada de se sentir pressionada, acha que a vida é dela e que não deve tomar decisões sobre as quais não tem a certeza só para o Príncipe poder dormir mais descansado. Assim, decidiu ignorar frases do género: "Se não queres ir trabalhar para ali, então vais trabalhar para onde???" ou "Devias agradecer ao teu patrão, porque mesmo sendo ele o que quer que seja, foi ele que te proporcionou esse trabalho.".
Floribella até desconfia que o Príncipe acha que ela não é assim tão mal paga, embora esta versão nunca tenha sido confirmada.Floribella sabe que o Príncipe não aguentaria metade de metade daquilo que ela já passou, mas até receia confrontá-lo directamente com isso, com receio de represálias. Por vezes o Príncipe fica agressivo, e ela não quer acabar mais uma discussão a chorar.
Floribella deixou de falar com as árvores e não vê esperança, não vê saída. Floribella está triste, profundamente triste. Floribella, às vezes, vai-se muito abaixo só queria deixar de existir, deixar de ser, deixar de tudo. Floribella já não acredita em nada, nem que o Príncipe a vá salvar. Floribella já não quer ser salva, nem por ele, porque sabe que corre o risco de passar o resto da sua vida a ouvir "Devias agradecer-me aquilo que fiz por ti, mas nunca o reconheceste" ou "Fui eu que te salvei" (pensava que Cristo é que nos tinha salvo, mas afinal enganei-me).
Floribella, às vezes, pensa que morrer poderia ser uma sensação reconfortante, porque não sabe o que anda ali a fazer. O mundo dela já não é colorido. As cores esbateram-se, ficaram velhas, e agora Floribella vê o mundo através de uma janela suja num dia cinzento de chuva. A ironia foi a única forma que encontrou de lidar com tanta fealdade.
*Desculpem lá ter "falado tão mal" durante este texto todo. Eu sou assim, digo muitos palavrões. Faz parte da minha natureza revoltada... Mas no fundo, no fundo, até acho que falo bem. Pelo menos, acho que falo e escrevo melhor do que pessoas que dizem coisas como "devias de" ou "nergúmeos".